FENDA (2024)


Uma das perguntas mais frequentes que surgiram nos debates de Fenda, em festivais ou nas conversas após as sessões, dizia respeito à escolha de iniciar o filme, já em sua segunda cena, com o olhar das duas personagens protagonistas diretamente voltado para a câmera. A curiosidade aparecia como tentativa de decifrar esse gesto, que para alguns soou impactante, em certa medida desconfortável – uma quebra interpelativa.

Fizemos um curta narrativo que dialoga com códigos clássicos das relações entre imagens e sons, em seu fluxo de continuidade e na construção da mise-en-scène. Mas nada disso está ali exatamente como armadura — ao menos, essa foi a busca. Tentamos experimentar por dentro dessa forma preestabelecida, tornar instáveis alguns de seus procedimentos, ainda que o filme evoque também a fixidez do quadro e dos corpos, pois, em certa camada, fala da fossilização de uma relação no tempo.

A disposição da primeira cena entre Marta e Diná já estava definida desde o roteiro: o apartamento da botânica, um ambiente controlado, quase laboratorial, em contraste com a soltura da abertura do filme em plano-sequência, mais observacional e com uma atuação de inclinação naturalista. Marta, sentada desconfortavelmente no trono como uma imperatriz negra do tarô em seu reino, recebe, então, Diná, a sábia anciã viajante.

Era importante para o filme que entrássemos na relação das duas quebrando o código de identificação emocional que estrutura a narrativa clássica. O olhar direto para a câmera reconfigura o espectador dentro da cena e do filme logo no início, desestabiliza o lugar que ele ocupa naquele sofá, devolvendo-lhe a pergunta: como você olha para isso?

Não conseguia imaginar o filme sem essa rasura no contrato ilusionista que organiza o cinema clássico. Uma fratura que suspende a escolha automática de lados dentro daquele conflito e convoca, em vez disso, um pensamento sobre o que se apresenta diante dos olhos em sua complexidade, ambiguidade, historicidade e contradição. Sobra para a montagem, então, o trabalho de descascar a tinta da continuidade e revelar, por fim, o abismo milimetrado — aqui amplificado pela mudança da direção dos olhares em cena: elas nos veem. E agora?

Perseguir esse gesto em uma cena de conversa entre personagens sentadas frente a frente cria, no entanto, outros ruídos nesse princípio. A interrupção do fluxo de transparência narrativa normalmente estabelece o chamado efeito de distanciamento brechtiano (Verfremdungseffekt), ao qual Godard tanto recorreu em suas montagens e encenações. A distância está lá, é palpável entre Marta e Diná na diegese e como gesto formal de estranhamento e interpelação dirigida ao espectador. No entanto, esse esgarçamento que expõe o dispositivo, que rompe a ilusão harmônica — tanto da relação entre as personagens quanto do próprio filme —, acaba por fazer o espectador tropeçar, contraditoriamente, para dentro da cena, fazendo-o sentar-se frente a uma e frente à outra, a experimentar os dois lados de uma moeda da qual não se pode escolher eticamente nenhum deles. Tentamos, assim, fazer essa moeda oscilar no ar ao longo de todo o filme, ora mostrando a face de uma, ora a da outra.

Dito de outro modo, este filme é também sobre experimentar a troca de lugares no sofá verde da sala de Marta, até a última cena, quando, após todo o giro das duas no apartamento, a rachadura anunciada no vidro do carro já não é apenas fissura, mas passagem. Uma abertura de renascimento. Para outro filme?

ANATOMIA DE UMA QUEDA (Justine Triet, 2023)


Quando roteiro e montagem são uma coisa só: fragmentos precisos de um território difuso, como a neve que dissolve o sangue no telhado em fast-forward. “Não era assim que ele era”, diz Sandra, após retirar o casaco diante do júri e dos olhos nublados do menino, quase no limite do corte.

PEDÁGIO (Carolina Markowicz, 2023)


O título surge e a memória colorida de Ran, de Kurosawa, recobre por alguns segundos a paisagem industrial de Cubatão, na Baixada Santista. Se, diante da trama e da mise-en-scène, o que impera — tanto aqui quanto, ainda mais, em Carvão, seu filme anterior — é uma secura e uma crueza capazes de implodir todo o drama para dentro do espaço em que vivem (de silêncios) aquelas personagens, é na clássica cena do beijo, agora revisitada sob outras medidas, que dois homens suspensos no balanço ou na moto abrem um rasgo de delicadeza e integridade no plano e nos filmes, quando tudo ao redor ainda é fumaça e cinza.

PAST LIVES (Celine Song, 2023)


Uma linha entrecortada por certas elipses videoclípticas e saltos apressados no tempo consegue, surpreendentemente, arrastar essas vidas passadas até seu ponto médio, quando de fato a história deságua. Mas não é a chegada do amor da infância o grande evento que desestrutura tudo; é, antes, aquela bela cena de conversa na cama com o marido americano, em que somos sugados para dentro dos sonhos indecifráveis de Nora Moon, quando esta se encontra com sua Na Young ao dormir. O que emociona neste primeiro longa delicado de Celine Song parece residir na rara doçura e maturidade emocional dos personagens masculinos, enfeitiçados pelo mistério de uma mulher desenraizada que caminha em travelling para um choro. Diante disso, restam ainda os segredos contados em coreano e os olhares suspensos também fora do close: aqueles represados na apresentação no apartamento, na conversa no balcão do bar e no congelamento do beijo invisível de uma despedida que, contraditoriamente, implode tudo para fora.

PACTO BRUTAL: O assassinato de Daniella Perez (Tatiana Issa e Guto Barra, 2022)


Quando Daniella Perez foi brutalmente assassinada, eu tinha 9 anos. Lembro como se fosse hoje o impacto do crime no Brasil — e na minha infância. Eu era apaixonada por novelas e, como quase todo mundo, estava encantada por sua Yasmin fictícia, de Corpo e Alma (1992-1993). Mas ver o corpo de uma mulher real dilacerado, exposto em todas as capas de revistas e jornais, foi traumatizante, assustador. Crianças têm uma relação muito estranha com a morte. Hoje me pergunto como uma revista sensacionalista que exibia seu cadáver podia estar disponível na biblioteca de uma escola frequentada por gente da minha idade. No recreio, alguns colegas iam até lá olhar aquelas imagens como algo proibido — assim como quando os Mamonas Assassinas morreram e os pedaços de seus corpos, mutilados pelo acidente, circularam de carteira em carteira na sala de aula. Eu só sentia um pavor imenso em ver aquelas imagens.

Minha memória do que foi divulgado à época é confusa; eu era muito nova, afinal. Ficou, no entanto, a lembrança de como tentaram culpabilizar — mais uma vez — a vítima pelo que havia acontecido e de como se consolidou, para muitos, inclusive para mim, a falsa ideia de que Daniella mantivera um caso romântico anterior com seu assassino.

Trinta anos depois, a série Pacto Brutal – O Assassinato de Daniella Perez, dirigida por Tatiana Issa e Guto Barra e lançada pela HBO Max, desfaz a grande mentira do romance e recupera os detalhes sórdidos, a verdade dos fatos, das provas irrefutáveis e numerosas, e também aquilo que não ganhou destaque na mídia: porque a “falsa novela” amorosa inventada em torno do assassinato de uma atriz bonita por um colega de trabalho musculoso e medíocre sempre foi mais rentável. A série tem muitos méritos e, sem dúvida, um dos maiores é não dar voz aos algozes de Daniella — aspecto que, sabe-se, os incomodou após o lançamento. Expõe ainda a vergonha da justiça brasileira em certas minúcias e se recusa a glamourizar os assassinos, como a mídia da pior qualidade insiste em fazer até hoje, oferecendo-lhes entrevistas e espaço editorial para aqueles que decidiram ser alçados à fama às custas de um crime hediondo. Trata o casal assassino pelo que é: psicopatas perigosos, frios, egocêntricos, que jamais, sob hipótese alguma, demonstraram arrependimento. Monstros reais, da pior espécie. Lixo humano.

Impressiona como, ao redor do assassino de Daniella, formou-se uma horda de gente igualmente adoecida, capaz de idolatrá-lo a ponto de enviar-lhe cerca de cinquenta cartas por dia na prisão, com pedidos de casamento e outros absurdos. Pensar que esse gesto possa ser tratado como “brincadeira” por alguns ajuda a explicar a facilidade com que parte dos brasileiros elegeu para a presidência outro psicopata e mau ator, que encenou o próprio esfaqueamento para se eleger. Um sujeito sem empatia em qualquer nível, capaz de matar a sangue frio — lembremos as mais de 600 mil mortes por falta de vacina contra a Covid, os indígenas assassinados, a fome, as filas do osso, e assim por diante.

O Brasil não é um país sério, infelizmente. E muitas vezes parece um dos lugares mais tristes do mundo quando observado pela perspectiva do horror e da violência cotidiana sofridos por tantos e tantas, especialmente aqui as mulheres. Mesmo em um crime repleto de rastros e provas, foram necessários sete anos para que os assassinos de Daniella fossem julgados. Depois, foram soltos após cumprir apenas um terço da pena e hoje levam uma vida normal, sentando-se ao nosso lado numa sala de cinema. Um deles tornou-se pastor evangélico — o pastor-psicopata — que posa sem camisa em capa de revista sob a manchete “killer”. Segue liderando um secto ridículo de adoradores, com milhares de seguidores na internet. A outra, coautora do crime, uma mulher grávida capaz de matar outra mulher a punhaladas (sim, foi um punhal; a morte de Daniella foi um ritual macabro), formou-se advogada após receber uma sentença de júri que reforçava seu grau de periculosidade e inadaptabilidade social. Como?

A justiça no Brasil não existe para proteger a vítima. O assassinato de Daniella é fruto da psicopatia, mas também mais um caso de feminicídio motivado por cobiça e inveja — um crime de ódio contra uma mulher em ascensão — no qual não houve esforço investigativo eficiente por parte dos muitos homens à frente das buscas.

Emociona a persistência de Glória Perez, a mãe em carne viva (sempre as mães), e sua força inexplicável para suportar ver a filha que saiu de seu ventre ser assassinada inúmeras vezes ao longo de três décadas, com requintes de crueldade transformados em notícia em revista de fofoca. É a força investigativa dessa mãe e sua militância que deslocam a justiça e movem a engrenagem narrativa de uma série cheia de idas e vindas, de múltiplos ângulos de um mesmo crime, cuja montagem se recusa a nos deixar esquecer, em qualquer capítulo, o rosto vivo de Daniella — a bailarina – assim como o rosto de sua morte, aqueles olhos entreabertos de quem não teve sequer a chance de defender a própria vida. Uma série, enfim, montada com fôlego, senso de justiça e revolta.

NARDJES A. (Karim Aïnouz, 2020)


Levante popular da juventude:
Ou param com os cortes
ou paramos o país.

Não é mole, não…
tem dinheiro pra milícia,
mas não tem pra educação

O livro muda o mundo
A escola muda o mundo
Nós mudamos tudo.

Por que não cortam as regalias?

Ão, ão, ão
tira a mão da educação!

Ô estudante, preste atenção:
o presidente quer acabar
com a educação!

A revolução é fêmea.
A revolução é negra
Parem de nos matar,
a revolução somos nós:

Fragmentos sonoros
roubados
de uma manifestação.

AGNÈS VARDA (Bélgica, 1928 – França, 2019)


Há um sem-fim de imagens de Agnès Varda com uma câmera nas mãos, envelhecendo e renovando a história do cinema. São imagens de trabalho, imagens de uma investigação e do desejo pelas imagens; afinal, Varda é de fato “a cineasta”, aquela que faz do mundo uma poética e uma pergunta. E, como tal, nunca abandonou o filme. Moveu-o, pelo contrário, para todos os lados, como se move um cubo mágico dentro de sua própria forma, tantas e tantas vezes, a ponto de dissolver seus limites e nos surpreender com infinitas possibilidades para uma mesma provocação.

Junto ao rosto de Cléo congelado pelo canto de uma ópera triste, aos saltos interrompidos da Nouvelle Vague, aos olhos dos vizinhos que ela cativou na Rue Daguerre, ou ainda às veias de suas mãos — sempre com uma câmera — em movimento numa estrada, Varda é o próprio tempo: é a imagem, em tela, de uma duração.

Diante dela, dessa intrusa no meio dos muitos homens do cinema — e que aqui se embaralha também às imagens de John Wayne, Clint Eastwood, Manoel de Oliveira, Marilyn Monroe, Bette Davis, e tantos outros e outras que persistiram diante de nós —, é que o filme riu de si mesmo inúmeras vezes, com leveza e a profundidade de um poço. Riu para não ser o velho previsto, para não reverenciar fórmulas e números a todo instante, para não domar seu corpo selvagem nos moldes de uma certa roupa, e assim poder seguir.

Obrigada, Varda.

CENTRAL DO BRASIL (Walter Salles, 1998)


Havia esquecido o quanto Central do Brasil é um grande filme. Talvez pela idade em que o vi — afinal, lá se vão mais de 20 anos desde a sua feitura —, mas principalmente por nunca tê-lo visto numa tela grande como ontem, em sua versão restaurada em 4K, exibida no Cinema do Dragão, em Fortaleza.

Por mais que eu assista à maior parte dos filmes da minha vida em casa, em telas muito menores, nada se compara à experiência real do cinema. Às vezes esquecemos disso, e as semanas vão passando, junto com os filmes em cartaz que não vemos. Lembro de ter dito a um amigo, anos atrás, que estava há quase um mês sem ver nenhum filme, por absoluta falta de tempo. Ele reagiu com uma espécie de indignação pedagógica, como se aquilo fosse uma falha ética. Nunca mais permiti. Talvez porque o cinema, quando ausente, desorganize algo mais fundo.

Mas o que quero dizer, afinal, é o quanto Fernandona é uma gênia eterna, e como esse filme de Walter Salles faz parte da história do Brasil — um Brasil anterior a Lula, prestes a virar do avesso. E sempre que assisto Central…, espero por aquela cena do banheiro: esse toco de batom passado como um sopro de vida no rosto dessa mulher que, no instante seguinte, se desconstrói numa pequena e bela morte — para então voltar a viver num choro.

INVASÃO DE DOMICÍLIO (dir. Anthony Minguella, 2006)


Eis aqui compartimentos. Do lado esquerdo baixo, calças e saias variam do verde escuro aos tons de cinza, passando pelas listras amarelas para terminar novamente em verde. Blusas, a maioria em mangas, ocupam a parte superior: jeans, couro, verde limão, jeans, marrom terra escura, brancas, muitas, seguidas das beges amareladas. Três divisórias de peças diversas não há distinção pouco as reparo uso-as demais. Acima, os diversos detalhes. Lentes e música, bethânia elis fitzgerald joão bosco toquinho gil ney doces bárbaros b.b.king. Câmera filmadora. Escova de dentes, óleo depilatório, sabonete em miniatura, cabos externos e hd. Mais um andar. Camisas, as mangas curtas, levam-me pelo cinza, branco, preto, verde escuro, lilás com listras, vermelho liso sem mangas. No mais, tudo é jeans. Peças de ginástica chamam atenção. Filmes em pilhas horizontais, verticais, verticais menores horizontalizadas. A pilha da frente segue até o limite espacial superior. Limite. Relógios e quinquilharias se confundem. Truffaut, kurosawa, billy wilder. Cinema soviético encontra tarantino na horizontal. Compartimento que invade outros compartimentos é compartimento principal mais três gavetas, cartas de amor, relógios parados e cédulas. Qual parte em nós é ordem ou sentido: