PACTO BRUTAL: O assassinato de Daniella Perez (Tatiana Issa e Guto Barra, 2022)


Quando Daniella Perez foi brutalmente assassinada, eu tinha 9 anos. Lembro como se fosse hoje o impacto do crime no Brasil — e na minha infância. Eu era apaixonada por novelas e, como quase todo mundo, estava encantada por sua Yasmin fictícia, de Corpo e Alma (1992-1993). Mas ver o corpo de uma mulher real dilacerado, exposto em todas as capas de revistas e jornais, foi traumatizante, assustador. Crianças têm uma relação muito estranha com a morte. Hoje me pergunto como uma revista sensacionalista que exibia seu cadáver podia estar disponível na biblioteca de uma escola frequentada por gente da minha idade. No recreio, alguns colegas iam até lá olhar aquelas imagens como algo proibido — assim como quando os Mamonas Assassinas morreram e os pedaços de seus corpos, mutilados pelo acidente, circularam de carteira em carteira na sala de aula. Eu só sentia um pavor imenso em ver aquelas imagens.

Minha memória do que foi divulgado à época é confusa; eu era muito nova, afinal. Ficou, no entanto, a lembrança de como tentaram culpabilizar — mais uma vez — a vítima pelo que havia acontecido e de como se consolidou, para muitos, inclusive para mim, a falsa ideia de que Daniella mantivera um caso romântico anterior com seu assassino.

Trinta anos depois, a série Pacto Brutal – O Assassinato de Daniella Perez, dirigida por Tatiana Issa e Guto Barra e lançada pela HBO Max, desfaz a grande mentira do romance e recupera os detalhes sórdidos, a verdade dos fatos, das provas irrefutáveis e numerosas, e também aquilo que não ganhou destaque na mídia: porque a “falsa novela” amorosa inventada em torno do assassinato de uma atriz bonita por um colega de trabalho musculoso e medíocre sempre foi mais rentável. A série tem muitos méritos e, sem dúvida, um dos maiores é não dar voz aos algozes de Daniella — aspecto que, sabe-se, os incomodou após o lançamento. Expõe ainda a vergonha da justiça brasileira em certas minúcias e se recusa a glamourizar os assassinos, como a mídia da pior qualidade insiste em fazer até hoje, oferecendo-lhes entrevistas e espaço editorial para aqueles que decidiram ser alçados à fama às custas de um crime hediondo. Trata o casal assassino pelo que é: psicopatas perigosos, frios, egocêntricos, que jamais, sob hipótese alguma, demonstraram arrependimento. Monstros reais, da pior espécie. Lixo humano.

Impressiona como, ao redor do assassino de Daniella, formou-se uma horda de gente igualmente adoecida, capaz de idolatrá-lo a ponto de enviar-lhe cerca de cinquenta cartas por dia na prisão, com pedidos de casamento e outros absurdos. Pensar que esse gesto possa ser tratado como “brincadeira” por alguns ajuda a explicar a facilidade com que parte dos brasileiros elegeu para a presidência outro psicopata e mau ator, que encenou o próprio esfaqueamento para se eleger. Um sujeito sem empatia em qualquer nível, capaz de matar a sangue frio — lembremos as mais de 600 mil mortes por falta de vacina contra a Covid, os indígenas assassinados, a fome, as filas do osso, e assim por diante.

O Brasil não é um país sério, infelizmente. E muitas vezes parece um dos lugares mais tristes do mundo quando observado pela perspectiva do horror e da violência cotidiana sofridos por tantos e tantas, especialmente aqui as mulheres. Mesmo em um crime repleto de rastros e provas, foram necessários sete anos para que os assassinos de Daniella fossem julgados. Depois, foram soltos após cumprir apenas um terço da pena e hoje levam uma vida normal, sentando-se ao nosso lado numa sala de cinema. Um deles tornou-se pastor evangélico — o pastor-psicopata — que posa sem camisa em capa de revista sob a manchete “killer”. Segue liderando um secto ridículo de adoradores, com milhares de seguidores na internet. A outra, coautora do crime, uma mulher grávida capaz de matar outra mulher a punhaladas (sim, foi um punhal; a morte de Daniella foi um ritual macabro), formou-se advogada após receber uma sentença de júri que reforçava seu grau de periculosidade e inadaptabilidade social. Como?

A justiça no Brasil não existe para proteger a vítima. O assassinato de Daniella é fruto da psicopatia, mas também mais um caso de feminicídio motivado por cobiça e inveja — um crime de ódio contra uma mulher em ascensão — no qual não houve esforço investigativo eficiente por parte dos muitos homens à frente das buscas.

Emociona a persistência de Glória Perez, a mãe em carne viva (sempre as mães), e sua força inexplicável para suportar ver a filha que saiu de seu ventre ser assassinada inúmeras vezes ao longo de três décadas, com requintes de crueldade transformados em notícia em revista de fofoca. É a força investigativa dessa mãe e sua militância que deslocam a justiça e movem a engrenagem narrativa de uma série cheia de idas e vindas, de múltiplos ângulos de um mesmo crime, cuja montagem se recusa a nos deixar esquecer, em qualquer capítulo, o rosto vivo de Daniella — a bailarina – assim como o rosto de sua morte, aqueles olhos entreabertos de quem não teve sequer a chance de defender a própria vida. Uma série, enfim, montada com fôlego, senso de justiça e revolta.