Quando roteiro e montagem são uma coisa só: fragmentos precisos de um território difuso, como a neve que dissolve o sangue no telhado em fast-forward. “Não era assim que ele era”, diz Sandra, após retirar o casaco diante do júri e dos olhos nublados do menino, quase no limite do corte.
O título surge e a memória colorida de Ran, de Kurosawa, recobre por alguns segundos a paisagem industrial de Cubatão, na Baixada Santista. Se, diante da trama e da mise-en-scène, o que impera — tanto aqui quanto, ainda mais, em Carvão, seu filme anterior — é uma secura e uma crueza capazes de implodir todo o drama para dentro do espaço em que vivem (de silêncios) aquelas personagens, é na clássica cena do beijo, agora revisitada sob outras medidas, que dois homens suspensos no balanço ou na moto abrem um rasgo de delicadeza e integridade no plano e nos filmes, quando tudo ao redor ainda é fumaça e cinza.
Uma linha entrecortada por certas elipses videoclípticas e saltos apressados no tempo consegue, surpreendentemente, arrastar essas vidas passadas até seu ponto médio, quando de fato a história deságua. Mas não é a chegada do amor da infância o grande evento que desestrutura tudo; é, antes, aquela bela cena de conversa na cama com o marido americano, em que somos sugados para dentro dos sonhos indecifráveis de Nora Moon, quando esta se encontra com sua Na Young ao dormir. O que emociona neste primeiro longa delicado de Celine Song parece residir na rara doçura e maturidade emocional dos personagens masculinos, enfeitiçados pelo mistério de uma mulher desenraizada que caminha em travelling para um choro. Diante disso, restam ainda os segredos contados em coreano e os olhares suspensos também fora do close: aqueles represados na apresentação no apartamento, na conversa no balcão do bar e no congelamento do beijo invisível de uma despedida que, contraditoriamente, implode tudo para fora.